Saúde

Novo escore prevê risco de morte e sangramento em pacientes com câncer após infarto
Baseado em dados de mais de 1 milhão de pacientes atendidos entre 2004 e 2023 em Inglaterra, Suécia e Suíça, o trabalho é o maior já realizado nessa população específica. Do total analisado, 47 mil tinham diagnóstico atual...
Por Laercio Damasceno - 31/01/2026


Imagem ilustrativa


Um estudo internacional publicado neste sábado (31), na revista The Lancet propõe uma virada na forma como médicos avaliam e tratam pacientes com câncer que sofrem síndrome coronariana aguda — quadro que inclui infarto e angina instável. A pesquisa desenvolveu e validou um novo modelo de previsão de risco, o ONCO-ACS, capaz de estimar, de forma simultânea, a probabilidade de morte, sangramento grave e novos eventos isquêmicos nos seis meses seguintes ao episódio cardíaco.

Baseado em dados de mais de 1 milhão de pacientes atendidos entre 2004 e 2023 em Inglaterra, Suécia e Suíça, o trabalho é o maior já realizado nessa população específica. Do total analisado, 47 mil tinham diagnóstico atual ou recente de câncer, grupo historicamente excluído dos grandes ensaios clínicos em cardiologia.

“Pacientes com câncer sempre estiveram à margem das ferramentas tradicionais de estratificação de risco”, afirma o cardiologista Florian A. Wenzl, do NHS England e da Universidade de Zurique, autor principal do estudo. “Isso cria decisões clínicas baseadas em incerteza justamente em um grupo extremamente vulnerável.”

Os números ajudam a explicar o problema. Entre pacientes com câncer que tiveram síndrome coronariana aguda, a mortalidade em seis meses chegou a 27,8%, quase o dobro da observada em pacientes sem câncer. O risco de sangramento grave foi de 7,3%, enquanto 16,1% sofreram novos eventos isquêmicos, como outro infarto ou AVC.


Segundo os autores, essas ameaças competem entre si: terapias agressivas reduzem o risco de infarto, mas aumentam o de sangramento — algo especialmente crítico em pacientes oncológicos, frequentemente anêmicos ou com distúrbios de coagulação.

O que muda com o ONCO-ACS

Diferentemente de escores clássicos como GRACE ou PRECISE-DAPT, o ONCO-ACS incorpora variáveis específicas do câncer, como tipo de tumor, presença de metástases e tempo desde o diagnóstico, além de fatores clínicos usuais. O modelo usa técnicas de aprendizado de máquina para combinar 11 variáveis disponíveis na admissão hospitalar.

Na validação externa, o escore apresentou alta precisão preditiva: a área sob a curva (AUC) para mortalidade foi de até 0,84, desempenho considerado excelente em modelos clínicos. Resultados semelhantes foram observados para sangramento e eventos isquêmicos.

“É a primeira ferramenta que avalia, de forma integrada, riscos concorrentes em pacientes com câncer e infarto”, diz Stefan James, da Universidade de Uppsala, coautor do estudo. “Isso permite personalizar decisões sobre cateterismo, stents e duração da dupla antiagregação.”

Ao aplicar o novo escore às diretrizes atuais, os pesquisadores observaram que a maioria dos pacientes com câncer ainda se beneficiaria de tratamento invasivo, contrariando a prática comum de conduta conservadora por medo de complicações. Ao mesmo tempo, o modelo identifica subgrupos em que reduzir a intensidade do tratamento pode salvar vidas.

Especialistas veem o estudo como um marco na consolidação da cardio-oncologia, área que ganhou força nas últimas duas décadas com o envelhecimento da população e o aumento da sobrevida no câncer.

Para Thomas F. Lüscher, cardiologista da Universidade de Zurique e um dos autores seniores, o avanço é também ético: “Excluir pacientes com câncer da evidência científica já não é aceitável. Este estudo mostra que é possível fazer medicina de precisão mesmo em cenários complexos”.

O escore ONCO-ACS já está disponível em plataforma aberta e, segundo os autores, pode influenciar tanto a prática clínica quanto o desenho de futuros ensaios randomizados. Em um sistema de saúde pressionado por custos e decisões de alto risco, a promessa é simples — e ambiciosa: tratar melhor quem sempre foi tratado com menos certeza.


Detalhes da publicação   
Previsão de mortalidade, sangramento e eventos isquêmicos em pacientes com câncer e síndrome coronariana aguda: um estudo de desenvolvimento e validação de modelo. Wenzl, Florian A e outros. The Lancet, publicado em 31 de janeiro de 2026 - DOI: 10.1016/S0140-6736(25)02020, também disponível no ScienceDirect

 

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